No último mês de Agosto tive a feliz oportunidade de fazer uma viagem por Itália e no regresso passar por Marrocos.
Como em qualquer viagem temos sempre uma grande oportunidade de enriquecimento pessoal ao nos tentarmos mesclar com culturas distintas mas sem dúvida que nesta pequena odisseia tive o previlégio de conhecer e aprender mais sobre uma cultura que me começa a ser cada vez mais familiar, seja esse sentimento pela força do meu passado e/ou desejo para meu futuro, a cultura Judaica. Mais que uma religião, o Judaísmo representa um povo, e por muito que a história do nosso território mais recente, e até mesmo da Europa, tenha vindo a querer esconder e dissociar do mesmo a sua identidade, a verdade é que a presença deste povo tanto na península como no resto da Europa é inegável e por vezes gritante (na linguagem, costumes, …). Tentarei assim mostrar isso através de uma pequena amostra do que me foi possível visitar tentando assim partilhar um pouco daquilo que absorvi.
Alcalá de Henares: Terra de Cervantes
A minha primeira paragem foi em Alcalá de Henares, cidade proxima de Madrid.
Iplacea, Complutum, Al’Qual’at en Nah’ar, El Burgo de Santiuste, Alcalá de Henares, são tudo nomes para esta cidade com uma cultura com mais de 2000 anos, construída por romanos, muçulmanos, judeus e cristãos que ao longo de mais de 20 séculos criaram um legado enorme que nos podemos aperceber simplesmente ao caminhar pelas suas ruas. No fundo invejei bastante o facto de que mesmo ali no país vizinho não se esconde mas orgulha-se do passado multicultural, chamando mesmo a Alcalá, ao longo das ruas em cartazes e tabuletas, a cidade das 3 culturas.

Na “Calle de Santiago” podemos ver um dos painés informativos que se encontram ao longo da cidade
A cidade judia situava-se onde hoje são as ruas de Santiago e dos Escritórios, onde, para além da arquitectura e de alguns pátios, encontramos ainda algumas antigas lojas (talhos, ourivesarias, etc…) de uma cidade que contou com cerca de 111 familias judias de onde se destacaram figuras como Menahem Ben Zerah (1368), Abravanel (séc. XIV – XV) ou Alfonso de Alcalá.

Local onde existia a antiga “Sinagoga Mayor”, conhecido hoje por Curral da Sinagoga na rua “Carmen Calzado”
Local onde existia a “Sinagoga Menor” agora convertido a capela nos números 18 e 22 da rua de Santiago.
Roma: O ouro de D-us
Roma é sem dúvida uma cidade fantástica e com uma mistura perfeita entre passado e presente. Embora não tenha estado tempo suficiente para poder visitar tudo o que queria, o que de judaísmo se tratava baseei a minha “aventura” num documentário que vi há alguns meses no National Geographic e fui então à procura do “ouro de D-us”.
O primeiro monumento que visitei foi o Arco de Tito.

Arco de Tito.
Este arco foi construido após a morte de Tito como forma de comemorar o cerco e saque da cidade de Jerusalém no ano 70 da Era Comum. Esse foi um dos momentos decisivos da primeira guerra Judaico-Romana, despoletada pela revolta contra o império romano por parte dos judeus da provincia de Judá no primeiro século desta era. Este arco, ao que me informei, é das primeiras obras da antiguidade que tem representações dos antigos artefactos desaparecidos a quando da destruição e saque do Templo (cuja altura nos situa com a designação de Templo de Herodes): O Menorah, as Trombetas e a Mesa dos Pães objectos esses que, tal como as paredes do templo, se supõe que seriam feitos de ouro mas cujas localização actual é desconhecida, e, podemos ver pela fotografia que estão presentes em gravura no arco como prova de que os mesmos passaram por Roma:

Promenor no arco de Tito onde se vêm soldados romanos com os artefactos roubados do Templo
A título de curiosidade esta gravura do Menorah é considerada por muitos como a mais antiga e é envolta em grande polémica por contradição com comentários antigos que dizem que os braços do candelabro teriam outra forma. Ainda assim foi usada desta forma no brasão do Estado de Israel.

Brasão do Estado de Israel
Como é uma representação do saque e destruição do Templo os judeus, ainda hoje recusam-se a passar por baixo deste arco, apenas passaram em 1948, na data da fundação do Estado de Israel, pois membros da comunidade judaica de Roma marcharam sob o mesmo mas no sentido inverso ao que os soldados romanos fizeram.
Outro monumento em Roma que está associado ao saque obtido em Jerusalém é o Coliseu, obra de proporções extraordinárias, que se considera construído com o ouro dos judeus pois mesmo para os romanos seria uma obra com um custo até mesmo irreal. Segundo o documentário que vi sobre o livro “God’s Gold” de Sean Kingsley a própria placa inaugural, que estaria à entrada do Coliseu, faria originalmente referência ao mesmo ouro trazido pelos romanos do Templo, que foi fonte dos fundos necessários à construção do mesmo. Essa teoria é baseada numa possível mensagem que estaria presente em letras de metal encrustadas na pedra e cuja descoberta foi feita com base nuns furos caracteristicos na placa que seriam assim o suporte das mesmas letras:

Placa inaugural do coliseu onde se podem ver os furos das antigas letras de metal que fariam referência ao ouro dos Judeus

Mensagem decifrada pelo Prof. Louis Feldman, em que as letras de bronze sobre os buracos diriam que o coliseu teria sido construído apartir dos despojos de guerra

Entrada de Jerusalém no Coliseu. Peço desculpa pela má qualidade da fotografia (dado que se econtrava alta a figura e a luminosidade era fraca) mas é uma representação da antiga cidade de Jerusalém que está presente numa das entradas do Coliseu.
Sienna
O meu próximo destino foi Sienna, a cidade do Palio, corrida anual de cavalos em plena praça central da cidade.
A comunidade judaica instalou-se em Sienna em 1229 e prosperou no negócio da banca mesmo durante um período de persseguição durantes os séculos seguintes (os banqueiros judeus tinham de utilizar um grande “O” nas suas roupas). A sua libertação e emancipação total só aconteceu com a ocupação pelas tropas de Napoleão.
Em 1348 os judeus foram acusados de terem causado a peste e então foram forçados a viver fora do centro da cidade para um guetto chamado de Via degli Archi:

Arco da Entrada do gueto

O antigo getto

Porta da Sinagoga de Sienna

Lembrar as vítimas do antisemitismo

Interior da Sinagoga
Florença
Embora a presença inicial dos judeus em Florença tenha sido nos finais do século XIV e século XV, o que mais me impressionou foi sem dúvida a visão, humanismo e capacidade de alguns membros da família Medici que, também com conselho de personalidades como Jacob Abravanel (sim o mesmo de Alcalá de Henares que referi anteriormente!) garantiu plenos direitos e liberdades a judeus sefarditas espanhóis e portugueses que se estabelecessem em Florença, bem como a outros que para ali se deslocassem. Pelo que me foi transmitido pela guia do Museu Hebraico de Florença, os Medici protegeram a comunidade judaica mesmo até contra vontade do “poder” papal e influência de outras cidades estado do que hoje conhecemos por Itália, oferecendo mesmo refúgio a judeus de todo o território. Como é sabido, os únicos ofícios que eram permitidos a judeus eram os relacionados com a banca e muitos Medici souberam dar valor aos mesmos utilizando os serviços prestados pelos judeus banqueiros para gerir, preservar e aumentar as suas fortunas. Infelizmente, e muito estranhamente, Cosimo Medici, provavelmente devido a uma grande pressão externa, obrigou os judeus a viverem num getto e fechou muitos dos seus bancos. O antigo bairro judeu situava-se onde hoje se encontra a Praça da República:

Praça da República em Florença, antiga localização do bairro judeu
A emancipação só se deu em finais do século XIX com a invasão das tropas Napoleónicas e é nesta altura que é inaugurada a Grande Sinagoga de Florença, um edifício espantoso de estilo mourisco (a guia disse que foi baseado no templo de Hagia Sophia, na Turquia).

Sinagoga de Florença
Neste espaço encontramos a Sinagoga, o Museu Hebraico e uma escola. Infelizmente não tive permissão para tirar fotos dentro destes espaços e não visitei a escola.
O museu é fantástico, por apenas 3€ tive uma guia que me explicou algumas tradições associadas a vários artefactos, um pouco da história dos judeus em Itália e em Florença em particular, mostrou alguns objectos ainda danificados pelas baionetas Nazis aquando da ocupação em que a Sinagoga foi usada como depósito de veículos militares, a história dos judeus que combateram com a resistência italiana, os sobreviventes ao Holocausto entre alguns outros assuntos. O interior da Sinagoga é maravilhoso, as imagens seguintes não são de minha autoria mas acho que demonstra um pouco da grandiosidade daquele edifício:



Retirado de: http://www.museumsinflorence.com/musei/Synagogue_of_Florence.html
Depois almocei no Ruth’s, um restaurante vegetariano kosher, pois a entrada no museu oferece desconto no mesmo! (Win-Win situation!)
Marrakech
Regressado de Itália segui para Marrocos onde, depois de passar um dia em Chefchaouen no Norte para descansar, me dirigi de comboio até à frenética cidade de Marrakesh.
A judiaria de Marrakech, cuja palavra em árabe é Mellah, é uma das maiores de toda aquela zona de África e foi abrigo para os judeus expulsos da península no século XV. Foi-me dito que outrora muçulmanos e judeus, comerciantes de especiarias principalmente, trabalhavam e rezavam lado a lado dentro das muralhas da medina.
Confiei, depois de exaustivamente dizer que não era preciso, num guia do museu da madrassa de Marrakech para me levar à sinagoga maior dentro do próprio mellah onde funciona também um hotel. O mellah, ou gettho, é um espaço bastante peculiar pois embora como seja característico tenha ruas muito estreitas está extremamente sobrepovoado maioritariamente por muçulmanos com menos possibilidades económicas:

Uma rua no mellah de Marrakech
E lá cheguei ao espaço da Sinagoga maior onde fui bem recebido e onde estavam outros turistas dos EUA com os quais assistimos a algumas explicações por parte de uma pessoa que vivia naquele espaço.

Promenor da entrada do espaço da Sinagoga
Pátio interior na Sinagoga de Marrakech
Termina assim a minha tentativa de muito resumidamente mostrar alguns dos sítios com património judaico que tive o prazer de visitar estas férias e que me deixaram com vontade de voltar pois é pena já que do pouco tempo que tive (3 semanas!) sei que muito mais ficou por ver.