Rezar em hebraico… mas e em português?

Uma lição fundamental que aprendi ao longo destes anos é que as orações precisam que as compreendamos para que tenham significado. Do que vale recitar as longas bênçãos da Amidá ou um qualquer salmo se não fazemos a mínima ideia do que significam.
É certo que o hebraico é a língua escolhida e preferencial para o povo judeu como língua litúrgica e sem dúvida que nenhuma outra tradução das versões originais das orações conseguirá ser totalmente certa sem ser em hebraico. Na tradição judaica, o hebraico é a língua com a qual D’us «contactava» com os profetas daí ser apelidada, de acordo com Nachmanides, como a «língua sagrada». No Talmud (Sotah 33) discute-se esta mesma questão, em que se fala da comparação do rezar em hebraico com o rezar em aramaico (que representará, numa abordagem contemporânea, todas as línguas estrangeiras), e conclui-se que se deverá rezar em hebraico pois os anjos não percebem as línguas estrangeiras.

Mas a questão que se põe é a seguinte: e se não compreendermos hebraico e, consequentemente, as orações que dizemos diariamente? Será que o podemos fazer?
A resposta mais simples: o melhor é aprender hebraico. Mas, e após confirmar com o rabino Jules Harlow, existem várias orações, uma grande maioria mesmo, que podemos dizer na língua de nossa compreensão.

Maimonides disse, e com todo o sentido, que «rezar sem concentração não é considerado rezar», ou seja, rezar não é apenas debitar uma série de incompreensíveis palavras a uma velocidade estonteante não compreendendo uma única coisa do que se está a dizer. O princípio de como rezar diariamente pode ter origem na Torá (Devarim 11:13):

יג וְהָיָה, אִם-שָׁמֹעַ תִּשְׁמְעוּ אֶל-מִצְו‍ֹתַי, אֲשֶׁר אָנֹכִי מְצַוֶּה אֶתְכֶם, הַיּוֹם–לְאַהֲבָה אֶת-יְהוָה אֱלֹהֵיכֶם, וּלְעָבְדוֹ, בְּכָל-לְבַבְכֶם, וּבְכָל-נַפְשְׁכֶם

«E há de ser que, se diligentemente obedeceres a meus mandamentos que eu hoje te ordeno, de amar ao Eterno, e de o servir de todo o teu coração e de toda a tua alma»

Verso «de o servir de todo o teu coração» a partir do qual, no Talmud (Taanit 2a), conclui que devemos praticar o serviço da oração com todo o nosso coração, designado até as orações como Avodah sheba-Lev ou seja «serviço do coração» (ou «que está no coração»). Maimonides acrescenta até que ao dizermos as palavras sem as compreendermos, mesmo que rezemos diariamente, não cumprimos a mitzvá porque é impossível estar a fazê-lo com significado e com o coração.

A conselho do rabino Jules, comecei há uns meses a praticar diariamente o serviço da tarde (minchá) na seguinte sequência:

  1. Shema
  2. Ashrei (Salmo 145)
  3. Amidá
  4. Alênu

Pesquisei junto do rabino e noutras fontes, qual seria a regra em relação à língua na qual recitaria estas orações. Confesso que nas primeiras vezes o fiz em hebraico, usando melodias que podem ser encontradas no site da Chabad, e fiquei com um sentimento vazio por apenas perceber o que disse no Shema, por saber o que significa em português. Em relação ao Shema existe uma grande discussão dado que no Talmud o rabino Yehudah diz que se deve recitar o Shema em hebraico visto que é retirado da Torá. Embora a maioria dos sábios diga que deve ser recitado em qualquer língua que se compreenda, a Halachá, que sempre seguiu a maioria, pelo menos no tempo em que os sábios se esforçavam por compreender e pragmatizar o judaísmo o que deixou de acontecer há séculos, diz que o Shema pode ser recitado em qualquer língua mas com a obrigação de que seja entendido, e que as palavras sejam «claras e articuladas» (código da lei judaica: Orech Chaim 62:2).

Também é geralmente aceite que a Amidá seja recitada em qualquer linguagem.

Então afinal, quando rezamos sozinhos podemos fazê-lo numa língua que compreendamos?
No código da lei judaica em Orech Chaim, 101:4 diz que quando rezamos uma oração que todos os Judeus rezem podemos fazê-lo em qualquer língua, mesmo que nas discussões talmûdicas apenas se refira o aramaico como alternativa ao hebraico, o aramaico pode e deve ser entendido, em termos de regra, como qualquer outra língua estrangeira mas que a compreendamos.

Na oração o mais importante é prestar atenção a toda a reza e a concentração é vital durante todo o serviço, seja ele qual for (Código da Lei Judaica). Existem até pontos em várias orações (como a primeira linha do Shema, o início da Amidá, a linha do Salmo 145 «Abres a tua mão, e fartas os desejos de todos os que vivem», etc..) que caso não os digamos com concentração e clareza devemos recomeçar a própria oração. Ou seja, se o fizermos numa língua que não compreendemos, estaremos a violar não só a ideia que devemos rezar com o coração, como não estaremos nem a compreender nem a rezar com a clareza necessária tanto estas partes como toda a oração.

Uma boa solução (que tenho visto como a mais aceite dentro do judaísmo)? Rezar numa língua que todos compreendamos e começar a aprender hebraico, para que um dia mais tarde, se assim o quisermos, cumprirmos a mitzvá da oração como se fazia há 2000 anos no Templo. Pois estaremos de qualquer uma das formas a cumprir verdadeira mitzvá: servir a D’us com todo o nosso coração.

6 Respostas para “Rezar em hebraico… mas e em português?”

  1. Carlos Baptista Diz:

    Já algum tempo perguntava a mim mesmo, o porquê do longo período de ausência de artigos neste excelente blog ?
    Felizmente aqui temos o regresso com este excelente texto, actual e objectivo como sempre.
    Concordo que se deva orar na língua que entendermos melhor, só assim podemos compreender a oração no seu todo.
    Isto porém, não impede de se estudar o hebraico como língua sagrada do judaísmo.

    Gostei muito deste regresso, e parabéns ao seu autor pela contínua lufada de ar puro que coloca nos seus artigos.

    Carlos Baptista

  2. Aradin Clementino de Albuquerque Diz:

    Recife,26 de Kislev de 5771.
    Devemos orar na língua que nos propricie maior contato com o DIVINO NOME;orar é antes de tudo desligar a mente mudana e ligar o todo com o Eterno.
    Sempre se deve aprender lições novas,pois o conhecimento é a maior joia assim sendo por que não aprender o hebraico.
    Aradin.

  3. sefaradi Diz:

    Caro Aradin Clementino de Albuquerque:

    Concordo sem dúvida consigo! Daí que também sugiro que se deve aprender o hebraico para não só conhecer os textos de uma maneira mais pura e fiel às versões originais mas também por um motivo cultural e de tradição.

    A verdade é que este post foi escrito após uma conversa com uma pessoa amiga que se sentia mal por ao rezar, seguir a transliteração do hebraico e não entender quase nada do que rezava, e pensar que o era obrigado a fazer em hebraico como mitzva. Dentro do judaísmo esta por vezes é uma ideia “comum” mas a verdade é que também é errada.

    Shalom, chag hannukah sameach!

  4. Ziva David Diz:

    Excelente texto. Obrigada pela partilha.
    Desde que conheço o Rabi Jules Harlow, que ele nos diz isso, por isso aquando das suas vindas lemos várias orações em português e são colocadas várias perguntas a todos nós precisamente para termos a noção do que estamos a orar e da sua importancia, para que como diz o texto e muito bem, a oração seja de facto uma mitsvá.
    Aliás esta questão é colocada por quase todos aqueles que começam a frequentar a nossa sinagoga…Para que lemos no hebraico transliterado se nada percebemos.
    Parabéns
    Porém a tua resposta com este texto, vem clarificar de vez esta dúvida.

  5. sefaradi Diz:

    Obrigado eu! Fico bastante contente por ajudar seja de que forma for.

  6. Leonardo Nunes Diz:

    Quero parabenizá-lo pelo blog. De fato o esclarecimento vai de encontro à muitos judeus e mesmo prosélitos que ainda tem dúvidas sobre o assunto. Fato é que muitos iniciantes desanimam
    pelo fato de se impor a reza em hebraico o que não deve deixar de
    ser um objetivo ao longo da caminhada. Mazal Tob!

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