Timna

Agora que nos aproximamos de Purim, queria partilhar convosco uma história.

Podemos ler no Talmud Babilónico a história de uma rapariga chamada Timna, uma princesa que se chegou perto de Abraão, Isaac e Jacob e pediu-lhe para se converter à sua fé. Eles rejeitaram mas ela não desmotivou, sujeitando-se então a ser uma das concubinas dos descendentes de Esaú, o irmão de Jacob. Fez isso pois perferia «antes ser uma serva deste Povo [Israelitas] do que uma princesa em outra nação», a sua neste caso.
Esta Timna era a mãe de Amalek, ancestral dos amalequitas, os mesmos que atacaram os israelitas durante o êxodo do Egipto. Amalek ressentiu-se então da forma como os patriarcas trataram a sua mãe e sentiu a necessidade de a vingar tentando destruir o povo que a rejeitou, ideia essa que foi depois ressuscitada por Haman.
Avançando vários anos até ao presente podemos olhar agora para os constantes atritos entre o que é considerado hoje como o «estabelecido» em Israel e os movimentos Conservadores e Reformistas. Podemos até recordar um recente episódio da rejeição do rabinato central do pedido de um homem para fazer aliya, homem esse que tinha feito uma conversão ortodoxa.
Todas estas pessoas – sejam reformistas, conservadores ou ortodoxos – querem fazer parte da Nação Judaica, querem participar e enriquecer as suas comunidades judaicas e isto é-lhes negado pelo que hoje em dia se encontra «estabelecido» e burocratizado em Israel. Aliás, é-lhes continuadamente repetido que eles não contam nem nunca contarão, como se a eles coubesse o papel de identificar quantos justos contariam para os 10 no episódio de Abraão.
Ainda assim muitos destes judeus por escolha própria irão continuar a viver as suas vidas e sentirem-se fiéis ao que acreditam nas suas comunidades judaicas, mesmo que por vezes rejeitados, maltratados, desconsiderados.. Continuam. E quais serão então as consequências destas (e destes) Timna’s dos tempos modernos? E será que deve o Povo Judeu, como comunidade, continuar a aceitar que as pessoas continuem a ser assim tratadas?
Durante a parashat Zachor somos ensinados a «Lembrar o que Amalek nos fez» mas neste prisma secalhar seria também bom lembrar-mo-nos o que foi «feito a Amalek» ou a sua mãe, como nos ensina o Talmud. Acho que poderia haver um maior pragmatismo e seria sem dúvida o melhor para todos se o «estabelecido» parasse um pouco para pensar no impacto que tem esta rejeição àqueles que querem fazer parte do Povo Judeu à sua maneira e fazer com que isso fosse também uma das lições que se pudessem tirar neste Purim.

Acho que o Povo Israel já tem muitos inimigos hoje em dia, já existem muitos «Amaleks» por aí fora. E o que mais me entristesse/revolta é que mais uma vez há a oportunidade para não deixar que a história se repita.

3 Respostas para “Timna”

  1. Lucy Diz:

    Se não me engano, Maimônides (Mishnê Torah) fala que em muitos momentos da história judaica as conversões foram até interrompidas. Faz muito tempo que li, mas acho que ele até cita os reinados de David e Salomão como exemplo, dizendo que os sábios não aceitavam conversões em tempos de poder e riqueza (entre outros motivos).

    E quanto ao caso do canadense que você trouxe… conversões feitas por reformistas/conservadores nunca foram consideradas por ortodoxos e tradicionais (maioria em Israel e entre sefarditas/mizrahis).

    Aí eu pergunto: Porque a rabanut deveria dar legitimidade a processos de conversão de grupos que não cumprem as leis de acordo com as interpretações rabínicas? É o mesmo que pedir que o Papa aceite as determinações do Leonardo Boff e da sua teologia da libertação…

  2. Lucy Diz:

    E entre ferir os sentimentos de quem não aceita a lei judaica como deveria ou abdicar de seus valores mais preciosos só para não causar algum tipo de sentimento de rejeição… eu não tenho dúvida do que deve ser feito.

    O grão rabino Shlomo Amar (citado na matéria) e o rabino Ovadia Yossef são dois dos que mais atacam os ultra-ortodoxos ashquenazitas por entenderem que eles são rígidos demais ao lidar com coversos em potencial.

    Rabino Ovadia Yossef:
    “Accepting the yoke of the commandments is essential for conversion,” Yosef reportedly told a small group of Shas MKs and officials. “But we must not push off converts too much. It is not right to cause them pain by rejecting them.”

    Os sentimentos dos que buscam entrar no povo judeu são sim levados em conta, mas só dos que aceitam o “jugo dos mandamentos”. Os que não aceitam (e da forma como os sábios judeus sempre entenderam) não podem ser convertidos.

    “According to the party’s MK Haim Amsalem, who was present when Yosef made the comments, Yosef quoted from the Babylonia Talmud to prove that rabbis should be lenient and welcoming with potential converts.

    The Talmud (Sanhedrin 99-100) relates that the patriarch Abraham rejected Timna, who wished to become his concubine. Instead, Timna married Eliphaz, Abraham’s great-grandson through Esau, and gave birth to Amalek, the Jewish people’s archenemy.

    Yosef said that from this passage in the Talmud we must learn to be more accepting of gentiles who wish to become a part of the Jewish people.

    Yosef’s comments come as a group of haredi Ashkenazi rabbis have launched an attack on the state-sponsored Conversion Authority for being too lenient.

    Chief Sephardi Rabbi Shlomo Amar, who is responsible for conversions in the Chief Rabbinate, has also been severely criticized by the haredi community for backing the Conversion Authority.

    Amar, one of Yosef’s protégé’s, has been under pressure to adopt more stringencies with respect to the acceptance of converts. However, Yosef’s stance will give Amar the rabbinic backing he needs to stand up to this pressure.

    Yosef’s position also underlines differences in approach between Sephardi rabbis, who tend to be more lenient in their halachic rulings than haredi Ashkenazi rabbis. “

  3. Grégore Diz:

    Com humildade, peço que olhe sobre a genealogia de Davi e veja que Tamar mãe de Perez e Zerá, ela era estrangeira igualmente também Rute e Raabe. O Senhor reconheceu cada uma destas mulheres pela sua fé ,assim como fez com Abraão, e as tornou parte de seu povo dando a elas um lugar na genealogia do Rei de Israel. O Senhor escolhe a quem Ele quiser para que Seu proposito se cumpra. Tenha fé em Deus e Ele assim como para tantos se revelará a você. Que Deus lhe abençoe e ilumine seus caminhos pela palavra viva e que o Espírito de Deus lhe ajude assim como me ajudou a crer e viver pela fé, pois eu sou um ramo enxertado na videira como estas mulheres e tantos outros!

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