O fruto da terra, que crescia no médio oriente antigo após o longo e quente verão, estaria agora, no início do outono, pronto para ser colhido. Para uma sociedade que dependeria, quase na totalidade, daquilo que a terra produzia, esta seria sem dúvida uma altura do ano crucial crucial. A necessidade de colher e juntar a colheita rapidamente e com eficiência era prioritário e, em consequência, importante seria também demonstrar a gratidão para com D’us perante estes tão preciosos presentes que foram oferecidos pela terra fazem surgir então uma das festas mais importantes do ano: Sucot!
Mas a festa de Sucot era (e é) mais do que uma celebração de todos os frutos da terra que foram colhidos, também se foca nas colheitas do próximo ano, colheitas essas que necessitarão, por exemplo, urgentemente de chuva. Caso isto não assim acontecesse, existiria, principalmente na antiguidade, um grande risco de fome para o próximo ano. Esta festa foca então todos estes aspectos e preocupações que estão associados a estes “outonos bíblicos”.
Uma das mais conhecidas características de Sucot é a tradição que deriva do seu próprio nome. A palavra significa, literalmente, “tendas” ou “barracas” (cujo singular é sukkah) e refere-se aos abrigos temporários que os antigos israelitas construíam , de acordo com o Vayikra (Levítico) capítulo 23, nomeadamente 23:42:
“Por sete dias habitareis em tendas de ramos; todos os naturais em Israel habitarão em tendas de ramos”
Uma leitura provável deste costume pode-se associar à necessidade de uma sociedade juntar e proteger as suas colheitas, ainda mais se forem escassas. Mesmo nos nossos dias agricultores palestinianos e israelitas constroem pequenas cabanas rudes, feitas dos ramos e das folhas das colheitas, no meio dos seus terrenos. Os agricultores dormem nessas cabanas por dois motivos: para maximizarem o tempo útil que têm para tratar das colheitas e também para proteger a colheita que foi feita. O costume de construír estas cabanas e decora-las com frutos, embora tenha provavelmente esta origem agrícola, manteve-se até os nossos dias, mesmo que, para uma grande maioria das pessoas, o significado agrícola já tenha desaparecido há muito.
A alegre celebração das colheitas, ainda mais para uma região como o médio oriente, é também uma das características desta festa. Seria, provavelmente, uma das alturas mais alegres dos antigos israelitas, e quem sabe os festival de peregrinação a Jerusalém mais popular dos três, sendo até referido em alguma literatura rabínica como a festa. Seria talvez uma festa de 7-8 dias em que as pessoas se juntavam e que comiam e bebiam os frutos das colheitas em grande quantidade e celebração. Uma característica única da festa é o uso das quatro espécies que se baseia nas instruções levíticas que requeriam aos israelitas (Vayikra 23:40):
“No primeiro dia, tomareis para vós outros frutos de árvores formosas, ramos de palmeiras, ramos de árvores frondosas e salgueiros de ribeiras; e, por sete dias, vos alegrareis perante o Senhor, vosso Deus.”
Os antigos Rabinos desenvolveram depois também os costumes do lulav e do etrog. Ramos de palmeira, de salgueiro e das árvores dos mirtilos são combinadas com o citrino e são ritualmente abanadas durante os salmos de Hallel (113-118).
Podemos até arriscar em associar este costume do lulav com antigos rituais de chuva como são verificados por outras civilizações, mas lá está só arriscar, até porque até aos dias de hoje a água da chuva é um dos problemas que afectam regiões como o médio oriente e, ritual ou não, o pedir a D’us por condições agrícolas favoráveis para um novo ano que começa é também uma das preocupações da festa de Sucot.
Leio então a festa de Sucot como uma oportunidade não só de celebrar os frutos que nos são oferecidos pela natureza, com a bondade de D’us, mas também, que a sukkah nos pode fazer pensar na natureza frágil e temporária do homem quando esposto aos elementos e à própria natureza, ou seja da nossa vida.
Shabbat Shalom!
