Salmo 95 | Psalm 95 | לכו נרננה – (Melodia Sefardita | Sephardic Tune)

Março 13, 2012

Estou neste momento a tentar aprender as melodias sefarditas que são usadas na leitura de salmos e orações.

Estou-me a basear no seguinte material:

* Sephardic Hazzanut Project: http://www.sephardichazzanut.com/
* Chabad : http://www.chabad.org/
* O meu Siddur: http://www.sefer.com.br/prodvar.aspx?codigo_produto=862&cookie_test=true

(ainda sou muito maçarico!)

Sucot: uma leitura

Outubro 14, 2011

O fruto da terra, que crescia no médio oriente antigo após o longo e quente verão, estaria agora, no início do outono, pronto para ser colhido. Para uma sociedade que dependeria, quase na totalidade, daquilo que a terra produzia, esta seria sem dúvida uma altura do ano crucial crucial. A necessidade de colher e juntar a colheita rapidamente e com eficiência era prioritário e, em consequência, importante seria também demonstrar a gratidão para com D’us perante estes tão preciosos presentes que foram oferecidos pela terra fazem surgir então uma das festas mais importantes do ano: Sucot!
Mas a festa de Sucot era (e é) mais do que uma celebração de todos os frutos da terra que foram colhidos, também se foca nas colheitas do próximo ano, colheitas essas que necessitarão, por exemplo, urgentemente de chuva. Caso isto não assim acontecesse, existiria, principalmente na antiguidade, um grande risco de fome para o próximo ano. Esta festa foca então todos estes aspectos e preocupações que estão associados a estes “outonos bíblicos”.

Uma das mais conhecidas características de Sucot é a tradição que deriva do seu próprio nome. A palavra significa, literalmente, “tendas” ou “barracas” (cujo singular é sukkah) e refere-se aos abrigos temporários que os antigos israelitas construíam , de acordo com o Vayikra (Levítico) capítulo 23, nomeadamente 23:42:

“Por sete dias habitareis em tendas de ramos; todos os naturais em Israel habitarão em tendas de ramos”

Uma leitura provável deste costume pode-se associar à necessidade de uma sociedade juntar e proteger as suas colheitas, ainda mais se forem escassas. Mesmo nos nossos dias agricultores palestinianos e israelitas constroem pequenas cabanas rudes, feitas dos ramos e das folhas das colheitas,  no meio dos seus terrenos. Os agricultores dormem nessas cabanas por dois motivos: para maximizarem o tempo útil que têm para tratar das colheitas e também para proteger a colheita que foi feita. O costume de construír estas cabanas e decora-las com frutos, embora tenha provavelmente esta origem agrícola, manteve-se até os nossos dias, mesmo que, para uma grande maioria das pessoas, o significado agrícola já tenha desaparecido há muito.

A alegre celebração das colheitas, ainda mais para uma região como o médio oriente, é também uma das características desta festa. Seria, provavelmente, uma das alturas mais alegres dos antigos israelitas, e quem sabe os festival de peregrinação a Jerusalém mais popular dos três, sendo até referido em alguma literatura rabínica como a festa. Seria talvez uma festa de 7-8 dias em que as pessoas se juntavam e que comiam e bebiam os frutos das colheitas em grande quantidade e celebração. Uma característica única da festa é o uso das quatro espécies que se baseia nas instruções levíticas que requeriam aos israelitas (Vayikra 23:40):

“No primeiro dia, tomareis para vós outros frutos de árvores formosas, ramos de palmeiras, ramos de árvores frondosas e salgueiros de ribeiras; e, por sete dias, vos alegrareis perante o Senhor, vosso Deus.”

Os antigos Rabinos desenvolveram depois também os costumes do lulav e do etrog. Ramos de palmeira, de salgueiro e das árvores dos mirtilos são combinadas com o citrino e são ritualmente abanadas durante os salmos de Hallel (113-118).
Podemos até arriscar em associar este costume do lulav com antigos rituais de chuva como são verificados por outras civilizações, mas lá está só arriscar, até porque até aos dias de hoje a água da chuva é um dos problemas que afectam regiões como o médio oriente e, ritual ou não, o pedir a D’us por condições agrícolas favoráveis para um novo ano que começa é também uma das preocupações da festa de Sucot.

Leio então a festa de Sucot como uma oportunidade não só de celebrar os frutos que nos são oferecidos pela natureza, com a bondade de D’us, mas também, que a sukkah nos pode fazer pensar na natureza frágil e temporária do homem quando esposto aos elementos e à própria natureza, ou seja da nossa vida.

Shabbat Shalom!

 

Timna

Março 15, 2011

Agora que nos aproximamos de Purim, queria partilhar convosco uma história.

Podemos ler no Talmud Babilónico a história de uma rapariga chamada Timna, uma princesa que se chegou perto de Abraão, Isaac e Jacob e pediu-lhe para se converter à sua fé. Eles rejeitaram mas ela não desmotivou, sujeitando-se então a ser uma das concubinas dos descendentes de Esaú, o irmão de Jacob. Fez isso pois perferia «antes ser uma serva deste Povo [Israelitas] do que uma princesa em outra nação», a sua neste caso.
Esta Timna era a mãe de Amalek, ancestral dos amalequitas, os mesmos que atacaram os israelitas durante o êxodo do Egipto. Amalek ressentiu-se então da forma como os patriarcas trataram a sua mãe e sentiu a necessidade de a vingar tentando destruir o povo que a rejeitou, ideia essa que foi depois ressuscitada por Haman.
Avançando vários anos até ao presente podemos olhar agora para os constantes atritos entre o que é considerado hoje como o «estabelecido» em Israel e os movimentos Conservadores e Reformistas. Podemos até recordar um recente episódio da rejeição do rabinato central do pedido de um homem para fazer aliya, homem esse que tinha feito uma conversão ortodoxa.
Todas estas pessoas – sejam reformistas, conservadores ou ortodoxos – querem fazer parte da Nação Judaica, querem participar e enriquecer as suas comunidades judaicas e isto é-lhes negado pelo que hoje em dia se encontra «estabelecido» e burocratizado em Israel. Aliás, é-lhes continuadamente repetido que eles não contam nem nunca contarão, como se a eles coubesse o papel de identificar quantos justos contariam para os 10 no episódio de Abraão.
Ainda assim muitos destes judeus por escolha própria irão continuar a viver as suas vidas e sentirem-se fiéis ao que acreditam nas suas comunidades judaicas, mesmo que por vezes rejeitados, maltratados, desconsiderados.. Continuam. E quais serão então as consequências destas (e destes) Timna’s dos tempos modernos? E será que deve o Povo Judeu, como comunidade, continuar a aceitar que as pessoas continuem a ser assim tratadas?
Durante a parashat Zachor somos ensinados a «Lembrar o que Amalek nos fez» mas neste prisma secalhar seria também bom lembrar-mo-nos o que foi «feito a Amalek» ou a sua mãe, como nos ensina o Talmud. Acho que poderia haver um maior pragmatismo e seria sem dúvida o melhor para todos se o «estabelecido» parasse um pouco para pensar no impacto que tem esta rejeição àqueles que querem fazer parte do Povo Judeu à sua maneira e fazer com que isso fosse também uma das lições que se pudessem tirar neste Purim.

Acho que o Povo Israel já tem muitos inimigos hoje em dia, já existem muitos «Amaleks» por aí fora. E o que mais me entristesse/revolta é que mais uma vez há a oportunidade para não deixar que a história se repita.

No café com Rashi: Ki Tissa

Fevereiro 20, 2011

Na parasha desta semana, para além das instruções sobre como construir o lavatório e a base para os kohanim se santificarem, quem e como se irão fazer as essências a queimar e quem irá também controlar a construção do Mischan, ou até que a mitzva de cumprir o Shabbat é superior à da construção do tabernáculo, existe um dos episódios que mais «confusão» ou dúvida me criaram ao longo dos tempos: o bezerro dourado.

Para os mais esquecidos, nesta parasha, enquanto Moshê está no monte o povo desespera por ele nunca mais voltar ,e então perdem a fé no Eterno, em Moshê e pedem a Araão para que lhes funda um bezerro dourado que utilizam para adoração. Este episódio mostra uma regressão na afirmação monoteísta. Após um período de escravatura num Egipto inundado de idolatria, ao qual o povo hebreu esteve sujeito, parece ser uma recaída de um povo inseguro às velhas crenças. Certamente muitos dos hebreus e a sua desconfiança constante ao longo da travessia do deserto, se deve às dúvidas quanto ao reconhecimento deste novo paradigma monoteísta.

Mas porque é que o povo perdeu a paciência de esperar que Moisés descesse? perguntei eu ao Rashi.

No primeiro verso do capítulo 32 em que se lê que «o povo viu que Moisés estava atrasado» Rashi diz que esta revolta se deve a um mal entendido. Ele afirma que quando Moisés subiu ao monte disse ao povo que «passados 40 dias iria regressar dentro das [primeiras] 6 horas» e entenda-se que no calendário judaico os “dias” começam com o por do Sol, ou seja, cada dia era contabilizado com a sua noite precedente. O povo pensou, segundo Rashi, que o dia em que ele subiu já contaria para esse prazo de 40 dias mas na verdade é que essa noite não era para ser contabilizada. Então ele a subir no dia 7 de Sivan teria de regressar a 17 de Tammuz. Este mal entendido, associado a um possível dia escuro e cinzento que parecia antecipar a noite, teoriza Rashi, vez o povo pensar que ele regressaria no por do sol de 16 de Tammuz, um dia antes do suposto gerando a consequente revolta e adoração do infame bezerro dourado.

Uma das questões que também me suscita bastantes dúvidas é o facto de, segundo o que se lê, que Araão, o escolhido por D’us como sacerdote, participa neste episódio activamente, sendo o responsável por fundir o bezerro. Porque é que também ele cai no meio desta confusão e não é um dos castigados?

Rashi diz que, no princípio, se tratou de um ardil de Araão para tentar ganhar tempo até ao regresso de Moisés. Quando Araão pede para se retirarem «as jóias douradas das suas mulheres, filhos e filhas» para fundir bezerro, Rashi afirma que ele o fez pois pensou que ao pedir isto, como as mulheres e as crianças apreciavam bastante as suas jóias, seria difícil para os maridos convencerem-nas/nos a entregarem essas jóias, ganhando assim tempo até que chegasse Moisés. Mas isso não aconteceu, pois relata a Torah que foram as próprias mulheres e crianças que retiraram as jóias elas próprias.
Outra demonstração que Araão não estava de acordo com a revolta é que após fundir o bezerro ele diz «Estes, oh Yisrael, são os vossos deuses que vos tiraram das terras do Egipto», e não «os nossos deuses». Araão também diz que será ele que construirá um altar e que «amanhã irá haver um festival» mas não «hoje» pois esperaria que Moisés regressasse entretanto. Rashi também usa para reforçar este plano de Araão a explicação do midrash em Vaykra Rabbah 10:3:

«Araão viu muitas coisas: viu que quando o seu sobrinho, Chur, os repreendeu eles mataram-no. Ele também viu, do que foi morto à sua frente que: mais vale que a culpa caia sobre mim e não sobre eles. Ele também viu outra coisa e disse: Se eles construírem o altar eles mesmos, um trará um pedaço de madeira, outro trará uma pedra o que resultará que o seu trabalho esteja terminado rapidamente. Mas se for eu que o construir à minha maneira, no decorrer chegará Moisés»

Rezar em hebraico… mas e em português?

Novembro 21, 2010

Uma lição fundamental que aprendi ao longo destes anos é que as orações precisam que as compreendamos para que tenham significado. Do que vale recitar as longas bênçãos da Amidá ou um qualquer salmo se não fazemos a mínima ideia do que significam.
É certo que o hebraico é a língua escolhida e preferencial para o povo judeu como língua litúrgica e sem dúvida que nenhuma outra tradução das versões originais das orações conseguirá ser totalmente certa sem ser em hebraico. Na tradição judaica, o hebraico é a língua com a qual D’us «contactava» com os profetas daí ser apelidada, de acordo com Nachmanides, como a «língua sagrada». No Talmud (Sotah 33) discute-se esta mesma questão, em que se fala da comparação do rezar em hebraico com o rezar em aramaico (que representará, numa abordagem contemporânea, todas as línguas estrangeiras), e conclui-se que se deverá rezar em hebraico pois os anjos não percebem as línguas estrangeiras.

Mas a questão que se põe é a seguinte: e se não compreendermos hebraico e, consequentemente, as orações que dizemos diariamente? Será que o podemos fazer?
A resposta mais simples: o melhor é aprender hebraico. Mas, e após confirmar com o rabino Jules Harlow, existem várias orações, uma grande maioria mesmo, que podemos dizer na língua de nossa compreensão.

Maimonides disse, e com todo o sentido, que «rezar sem concentração não é considerado rezar», ou seja, rezar não é apenas debitar uma série de incompreensíveis palavras a uma velocidade estonteante não compreendendo uma única coisa do que se está a dizer. O princípio de como rezar diariamente pode ter origem na Torá (Devarim 11:13):

יג וְהָיָה, אִם-שָׁמֹעַ תִּשְׁמְעוּ אֶל-מִצְו‍ֹתַי, אֲשֶׁר אָנֹכִי מְצַוֶּה אֶתְכֶם, הַיּוֹם–לְאַהֲבָה אֶת-יְהוָה אֱלֹהֵיכֶם, וּלְעָבְדוֹ, בְּכָל-לְבַבְכֶם, וּבְכָל-נַפְשְׁכֶם

«E há de ser que, se diligentemente obedeceres a meus mandamentos que eu hoje te ordeno, de amar ao Eterno, e de o servir de todo o teu coração e de toda a tua alma»

Verso «de o servir de todo o teu coração» a partir do qual, no Talmud (Taanit 2a), conclui que devemos praticar o serviço da oração com todo o nosso coração, designado até as orações como Avodah sheba-Lev ou seja «serviço do coração» (ou «que está no coração»). Maimonides acrescenta até que ao dizermos as palavras sem as compreendermos, mesmo que rezemos diariamente, não cumprimos a mitzvá porque é impossível estar a fazê-lo com significado e com o coração.

A conselho do rabino Jules, comecei há uns meses a praticar diariamente o serviço da tarde (minchá) na seguinte sequência:

  1. Shema
  2. Ashrei (Salmo 145)
  3. Amidá
  4. Alênu

Pesquisei junto do rabino e noutras fontes, qual seria a regra em relação à língua na qual recitaria estas orações. Confesso que nas primeiras vezes o fiz em hebraico, usando melodias que podem ser encontradas no site da Chabad, e fiquei com um sentimento vazio por apenas perceber o que disse no Shema, por saber o que significa em português. Em relação ao Shema existe uma grande discussão dado que no Talmud o rabino Yehudah diz que se deve recitar o Shema em hebraico visto que é retirado da Torá. Embora a maioria dos sábios diga que deve ser recitado em qualquer língua que se compreenda, a Halachá, que sempre seguiu a maioria, pelo menos no tempo em que os sábios se esforçavam por compreender e pragmatizar o judaísmo o que deixou de acontecer há séculos, diz que o Shema pode ser recitado em qualquer língua mas com a obrigação de que seja entendido, e que as palavras sejam «claras e articuladas» (código da lei judaica: Orech Chaim 62:2).

Também é geralmente aceite que a Amidá seja recitada em qualquer linguagem.

Então afinal, quando rezamos sozinhos podemos fazê-lo numa língua que compreendamos?
No código da lei judaica em Orech Chaim, 101:4 diz que quando rezamos uma oração que todos os Judeus rezem podemos fazê-lo em qualquer língua, mesmo que nas discussões talmûdicas apenas se refira o aramaico como alternativa ao hebraico, o aramaico pode e deve ser entendido, em termos de regra, como qualquer outra língua estrangeira mas que a compreendamos.

Na oração o mais importante é prestar atenção a toda a reza e a concentração é vital durante todo o serviço, seja ele qual for (Código da Lei Judaica). Existem até pontos em várias orações (como a primeira linha do Shema, o início da Amidá, a linha do Salmo 145 «Abres a tua mão, e fartas os desejos de todos os que vivem», etc..) que caso não os digamos com concentração e clareza devemos recomeçar a própria oração. Ou seja, se o fizermos numa língua que não compreendemos, estaremos a violar não só a ideia que devemos rezar com o coração, como não estaremos nem a compreender nem a rezar com a clareza necessária tanto estas partes como toda a oração.

Uma boa solução (que tenho visto como a mais aceite dentro do judaísmo)? Rezar numa língua que todos compreendamos e começar a aprender hebraico, para que um dia mais tarde, se assim o quisermos, cumprirmos a mitzvá da oração como se fazia há 2000 anos no Templo. Pois estaremos de qualquer uma das formas a cumprir verdadeira mitzvá: servir a D’us com todo o nosso coração.

Descoberta arqueológica e o Hanukkah

Dezembro 16, 2009

A festa das luzes, ou Hanukkah em hebraico, assinala a libertação e purificação do Templo de Jerusalém e a revolta contra os selêucidas liderada por Matatias Macabeu e os seus cinco filhos, conforme está descrito no Antigo Testamento.
A revolta terá começado depois de um azedar das relações entre os judeus e os selêucidas, de cultura helénica, que ocupavam o território nessa altura, no segundo século antes de Cristo.
Inicialmente os exércitos ocupantes foram bem recebidos em Jerusalém, tendo garantido aos judeus o respeito pelo seu culto e a isenção de impostos para os sacerdotes e para o Templo.
Durante o reinado de Antíoco IV, porém, a situação alterou-se. As práticas religiosas judaicas foram proibidas e o Templo profanado. A última gota foi uma ordem para que os judeus oferecessem sacrifícios aos deuses pagãos dos selêucidas. Quando Matatias, um sacerdote, se recusou a cumprir esta ordem, outro judeu aproximou-se do altar para oferecer o sacrifício em seu lugar. Matatias, contudo, aproximou-se do homem e matou-o, fugindo de seguida com os seus filhos e seguidores, e montando uma guerrilha contra os selêucidas e judeus colaboracionistas, que terminou com a libertação de Israel.

Impostos na raiz da revolta

Agora, uma descoberta arqueológica vem dar mais credibilidade a esta história bíblica. Um arqueólogo apercebeu-se de que três fragmentos de pedra que tinham sido descobertas em alturas diferentes, faziam parte da mesma tábua e juntando-as descobriu um decreto real nomeando um cobrador de impostos para as províncias de Israel, com ordens para recolher dinheiro dos templos.

Esta decisão, tomada pelo rei Selêuco IV, reflecte uma alteração radical nas relações entre os ocupantes e os judeus, que teria certamente causado muito mal-estar entre estes, e que explica como é que a situação pacífica da região deteriorou ao ponto de desencadear a revolta dos Macabeus.

Poucos anos depois do decreto Antíoco IV subiu ao trono, radicalizando a hostilidade e transformando o Templo num santuário ao deus grego Zeus.

A festa de Hanukkah recorda ainda a ocorrência de um milagre. Após a libertação do Templo, verificou-se que só havia azeite suficiente para manter a chama eterna acesa por mais um dia. Pela graça de Deus, contudo, a chama ardeu durante oito dias, o tempo necessário para se fazer e consagrar mais azeite para o Templo.

Um candelabro de nove braços é usado durante esta festa, com o acender de uma vela por dia durante oito dias, recordando os dias que a chama ardeu milagrosamente. O nono braço do candelabro, colocado no centro e mais alto que os restantes, é para o shamash, a vela que é usada para acender as restantes e a que também se pode recorrer para usos seculares, garantindo assim a pureza das outras oito.

Ahmadinejad: um discurso de paz (ou não?)

Setembro 24, 2009

Assisti ontem no France24 a Ahmadinejad, líder do regime Iraniano, que discursou ontem nas nações unidas no que se previa, segundo o mesmo, ser um discurso de paz e harmonia. Tal como a conotação de “eleições democráticas em Teerão” é óbvio que esta definição para o discurso se tratou apenas de mais uma prova de sarcasmo deste líder que me atrevo a considerar como dos tempos medievais, sem querer ao mesmo tempo ofender os lideres de tempos passados.
Depois de terminar uma semana com mais uma negação do Holocausto:

“Os ocidentais mentiram, fizeram o seu número e depois apoiaram os judeus.”
Mahmud Ahmadinejad

O presidente do Irão continua o seu discurso mais uma vez centrado no ataque a Israel acusando Telavive de ter “políticas desumanas” nos territórios palestinianos e de dominar os temas políticos e económicos a nível mundial. Referiu que estes assuntos eram controlados por “uma pequena minoria”, mais uma declaração totalmente anti-semita indo mais longe ao afirmar que a existência de Israel era:

“a própria existência deste regime é um insulto à dignidade dos povos”
Mahmud Ahmadinejad

Esquecendo talvez a posição “fácil” do Hamas de que é mais fácil opor e deitar chamas do que colaborar num processo de paz, e cujas pressões políticas fizeram com que, mais uma vez, o presidente da autoridade palestiniana Mahmoud Abbas suspendesse as negociações com Israel. Também é fácil de esquecer que a Palestina é uma região e não um país como muita propaganda quer fazer crer. Durante centenas de anos, aquela era a terra de ninguém. Desde que o império romano acabou com a nação de Israel, aquela terra não tem sido mesmo de ninguém. Mas porque Israel voltou a ser nação, de repente invoca-se uma guerra santa contra o inimigo invasor. É óbvio que não existem soluções fáceis. Israel já demonstrou no passado estar disposto a negociar, mas como temos constatado, o Hamas não está disposto a negociar, nem a cumprir acordos de cessar-fogo, porque na verdade gostava de perguntar ao senhor Ahmadinejad quem rompe os cessar-fogos repetidamente..Israel?
Fez-me ficar contente ver que o mesmo discurso foi feito para uma série de cadeiras vazias, onde não se encotravam à partida os representantes dos EUA, Israel e do Canadá, e que se foram tornando ainda mais vazias quando Austrália, Nova Zelândia, Suécia, França, Reino Unido, Itália, Alemanha foram abandonando a sala ao som das acusações de genocídio na faixa de Gaza.

Agora começo a perceber a descrição do discurso, pois no meio de todas as investidas anti-semitas, agressoras, anti-ocidentais, esqueci-me de algo importante que, e com respeito a muita gente que não tem culpa de ter estes líderes, para estes indivíduos a tradução de Islão continua a ser paz.

בראשית

Setembro 23, 2009

Voto anti-semita sai caro: Polémica entre egípcio e portugueses

Setembro 23, 2009

O egípcio Farouk Honsy, que é importante frisar que é apoiado por Portugal, perdeu ontem para a búlgara Irina Bokova as eleições para o cargo de director-geral da UNESCO na 5ª ronda de votação em Paris.

Durante o processo de escolha do líder da organização da UN para a Educação, Ciência e Cultura instalou-se a polémica entre Manuel Maria Carrilho, embaixador português na UNESCO, e o Ministério dos Negócios Estrangeiros dado que o mesmo, “por uma questão de consciência”, falou à 4ª ronda de votação em desacordo com o apoio português ao ministro egípcio da cultura associado à censura, ao encerramento de órgãos de comunicação social, à proibição de livros e a declarações anti-semitas. Na falta de Carrilho, o voto português foi levado por um funcionário que seguiu as instruções do Ministério dos Negócios estrangeiros. Indignado também, Manuel Alegre fez ontem pressão sobre José Sócrates, apelando ao PM para que Portugal alterasse o seu voto.

“Considero que Portugal não pode votar num ministro da Cultura que ameaçou queimar todos os livros de Israel”
Manuel Alegre

O nome de Irina Bokova, de 57 anos, será submetido em Outubro à aprovação dos 193 estados membros da organização.

Uma (pequena) viagem pelo judaísmo

Setembro 23, 2009

No último mês de Agosto tive a feliz oportunidade de fazer uma viagem por Itália e no regresso passar por Marrocos.

Como em qualquer viagem temos sempre uma grande oportunidade de enriquecimento pessoal ao nos tentarmos mesclar com culturas distintas mas sem dúvida que nesta pequena odisseia tive o previlégio de conhecer e aprender mais sobre uma cultura que me começa a ser cada vez mais familiar, seja esse sentimento pela força do meu passado e/ou desejo para meu futuro, a cultura Judaica. Mais que uma religião, o Judaísmo representa um povo, e por muito que a história do nosso território mais recente, e até mesmo da Europa, tenha vindo a querer esconder e dissociar do mesmo a sua identidade, a verdade é que a presença deste povo tanto na península como no resto da Europa é inegável e por vezes gritante (na linguagem, costumes, …). Tentarei assim mostrar isso através de uma pequena amostra do que me foi possível visitar tentando assim partilhar um pouco daquilo que absorvi.

Alcalá de Henares: Terra de Cervantes

A minha primeira paragem foi em Alcalá de Henares, cidade proxima de Madrid.

Iplacea, Complutum, Al’Qual’at en Nah’ar, El Burgo de Santiuste, Alcalá de Henares, são tudo nomes para esta cidade com uma cultura com mais de 2000 anos, construída por romanos, muçulmanos, judeus e cristãos que ao longo de mais de 20 séculos criaram um legado enorme que nos podemos aperceber simplesmente ao caminhar pelas suas ruas. No fundo invejei bastante o facto de que mesmo ali no país vizinho não se esconde mas orgulha-se do passado multicultural, chamando mesmo a Alcalá, ao longo das ruas em cartazes e tabuletas, a cidade das 3 culturas.

Na “Calle de Santiago” podemos ver um dos painés informativos que se encontram ao longo da cidade

A cidade judia situava-se onde hoje são as ruas de Santiago e dos Escritórios, onde, para além da arquitectura e de alguns pátios, encontramos ainda algumas antigas lojas (talhos, ourivesarias, etc…) de uma cidade que contou com cerca de 111 familias judias de onde se destacaram figuras como Menahem Ben Zerah (1368), Abravanel (séc. XIV – XV) ou Alfonso de Alcalá.

Local onde existia a antiga “Sinagoga Mayor”, conhecido hoje por Curral da Sinagoga na rua “Carmen Calzado”

Local onde existia a “Sinagoga Menor” agora convertido a capela nos números 18 e 22 da rua de Santiago.

Roma: O ouro de D-us

Roma é sem dúvida uma cidade fantástica e com uma mistura perfeita entre passado e presente. Embora não tenha estado tempo suficiente para poder visitar tudo o que queria, o que de judaísmo se tratava baseei a minha “aventura” num documentário que vi há alguns meses no National Geographic e fui então à procura do “ouro de D-us”.

O primeiro monumento que visitei foi o Arco de Tito.

Arco de Tito.

Este arco foi construido após a morte de Tito como forma de comemorar o cerco e saque da cidade de Jerusalém no ano 70 da Era Comum. Esse foi um dos momentos decisivos da primeira guerra Judaico-Romana, despoletada pela revolta contra o império romano por parte dos judeus da provincia de Judá no primeiro século desta era. Este arco, ao que me informei, é das primeiras obras da antiguidade que tem representações dos antigos artefactos desaparecidos a quando da destruição e saque do Templo (cuja altura nos situa com a designação de Templo de Herodes): O Menorah, as Trombetas e a Mesa dos Pães objectos esses que, tal como as paredes do templo, se supõe que seriam feitos de ouro mas cujas localização actual é desconhecida, e, podemos ver pela fotografia que estão presentes em gravura no arco como prova de que os mesmos passaram por Roma:

Promenor no arco de Tito onde se vêm soldados romanos com os artefactos roubados do Templo

A título de curiosidade esta gravura do Menorah é considerada por muitos como a mais antiga e é envolta em grande polémica por contradição com comentários antigos que dizem que os braços do candelabro teriam outra forma. Ainda assim foi usada desta forma no brasão do Estado de Israel.

Brasão do Estado de Israel

Como é uma representação do saque e destruição do Templo os judeus, ainda hoje recusam-se a passar por baixo deste arco, apenas passaram em 1948, na data da fundação do Estado de Israel, pois membros da comunidade judaica de Roma marcharam sob o mesmo mas no sentido inverso ao que os soldados romanos fizeram.

Outro monumento em Roma que está associado ao saque obtido em Jerusalém é o Coliseu, obra de proporções extraordinárias, que se considera construído com o ouro dos judeus pois mesmo para os romanos seria uma obra com um custo até mesmo irreal. Segundo o documentário que vi sobre o livro “God’s Gold” de Sean Kingsley a própria placa inaugural, que estaria à entrada do Coliseu, faria originalmente referência ao mesmo ouro trazido pelos romanos do Templo, que foi fonte dos fundos necessários à construção do mesmo. Essa teoria é baseada numa possível mensagem que estaria presente em letras de metal encrustadas na pedra e cuja descoberta foi feita com base nuns furos caracteristicos na placa que seriam assim o suporte das mesmas letras:

Placa inaugural do coliseu onde se podem ver os furos das antigas letras de metal que fariam referência ao ouro dos Judeus


Mensagem decifrada pelo Prof. Louis Feldman, em que as letras de bronze sobre os buracos diriam que o coliseu teria sido construído apartir dos despojos de guerra

Entrada de Jerusalém no Coliseu. Peço desculpa pela má qualidade da fotografia (dado que se econtrava alta a figura e a luminosidade era fraca) mas é uma representação da antiga cidade de Jerusalém que está presente numa das entradas do Coliseu.

Sienna

O meu próximo destino foi Sienna, a cidade do Palio, corrida anual de cavalos em plena praça central da cidade.

A comunidade judaica instalou-se em Sienna em 1229 e prosperou no negócio da banca mesmo durante um período de persseguição durantes os séculos seguintes (os banqueiros judeus tinham de utilizar um grande “O” nas suas roupas). A sua libertação e emancipação total só aconteceu com a ocupação pelas tropas de Napoleão.

Em 1348 os judeus foram acusados de terem causado a peste e então foram forçados a viver fora do centro da cidade para um guetto chamado de Via degli Archi:


Arco da Entrada do gueto

O antigo getto

Porta da Sinagoga de Sienna

Lembrar as vítimas do antisemitismo

Interior da Sinagoga

Florença

Embora a presença inicial dos judeus em Florença tenha sido nos finais do século XIV e século XV, o que mais me impressionou foi sem dúvida a visão, humanismo e capacidade de alguns membros da família Medici que, também com conselho de personalidades como Jacob Abravanel (sim o mesmo de Alcalá de Henares que referi anteriormente!) garantiu plenos direitos e liberdades a judeus sefarditas espanhóis e portugueses que se estabelecessem em Florença, bem como a outros que para ali se deslocassem. Pelo que me foi transmitido pela guia do Museu Hebraico de Florença, os Medici protegeram a comunidade judaica mesmo até contra vontade do “poder” papal e influência de outras cidades estado do que hoje conhecemos por Itália, oferecendo mesmo refúgio a judeus de todo o território. Como é sabido, os únicos ofícios que eram permitidos a judeus eram os relacionados com a banca e muitos Medici souberam dar valor aos mesmos utilizando os serviços prestados pelos judeus banqueiros para gerir, preservar e aumentar as suas fortunas. Infelizmente, e muito estranhamente, Cosimo Medici, provavelmente devido a uma grande pressão externa, obrigou os judeus a viverem num getto e fechou muitos dos seus bancos. O antigo bairro judeu situava-se onde hoje se encontra a Praça da República:


Praça da República em Florença, antiga localização do bairro judeu

A emancipação só se deu em finais do século XIX com a invasão das tropas Napoleónicas e é nesta altura que é inaugurada a Grande Sinagoga de Florença, um edifício espantoso de estilo mourisco (a guia disse que foi baseado no templo de Hagia Sophia, na Turquia).


Sinagoga de Florença

Neste espaço encontramos a Sinagoga, o Museu Hebraico e uma escola. Infelizmente não tive permissão para tirar fotos dentro destes espaços e não visitei a escola.

O museu é fantástico, por apenas 3€ tive uma guia que me explicou algumas tradições associadas a vários artefactos, um pouco da história dos judeus em Itália e em Florença em particular, mostrou alguns objectos ainda danificados pelas baionetas Nazis aquando da ocupação em que a Sinagoga foi usada como depósito de veículos militares, a história dos judeus que combateram com a resistência italiana, os sobreviventes ao Holocausto entre alguns outros assuntos. O interior da Sinagoga é maravilhoso, as imagens seguintes não são de minha autoria mas acho que demonstra um pouco da grandiosidade daquele edifício:




Retirado de: http://www.museumsinflorence.com/musei/Synagogue_of_Florence.html

Depois almocei no Ruth’s, um restaurante vegetariano kosher, pois a entrada no museu oferece desconto no mesmo! (Win-Win situation!)

Marrakech

Regressado de Itália segui para Marrocos onde, depois de passar um dia em Chefchaouen no Norte para descansar, me dirigi de comboio até à frenética cidade de Marrakesh.

A judiaria de Marrakech, cuja palavra em árabe é Mellah, é uma das maiores de toda aquela zona de África e foi abrigo para os judeus expulsos da península no século XV. Foi-me dito que outrora muçulmanos e judeus, comerciantes de especiarias principalmente, trabalhavam e rezavam lado a lado dentro das muralhas da medina.

Confiei, depois de exaustivamente dizer que não era preciso, num guia do museu da madrassa de Marrakech para me levar à sinagoga maior dentro do próprio mellah onde funciona também um hotel. O mellah, ou gettho, é um espaço bastante peculiar pois embora  como seja característico tenha ruas muito estreitas está extremamente sobrepovoado maioritariamente por muçulmanos com menos possibilidades económicas:

Uma rua no mellah de Marrakech

E lá cheguei ao espaço da Sinagoga maior onde fui bem recebido e onde estavam outros turistas dos EUA com os quais assistimos a algumas explicações por parte de uma pessoa que vivia naquele espaço.


Promenor da entrada do espaço da Sinagoga


Pátio interior na Sinagoga de Marrakech

Termina assim a minha tentativa de muito resumidamente mostrar alguns dos sítios com património judaico que tive o prazer de visitar estas férias e que me deixaram com vontade de voltar pois é pena já que do pouco tempo que tive (3 semanas!) sei que muito mais ficou por ver.